sábado

Pérola

Durante a sessão de cinema, fiz um poema.

Era outono ainda... agora a primavera se aproxima...

Eu nunca vi o seu sorriso gargalhante, nem brindei o reveillón contigo numa taça brilhante, mas nos meus escritos, você é a estrela mais bonita, e a mais distante...

Eu nunca andei de mãos dadas contigo na beira do mar, mas nos meus sonhos, chegamos a jantar com os pés na areia, antesala de Iemanjá, e brindamos sim, numa taça iluminada pelo sol se pondo, odoyá...

Eu nunca fui apresentada à sua família, nem nunca recebi aquele apaixonado bom dia, mas nos meus olhos, eu carrego o amor ainda nu e cru, sem orgulho, sem pecado, só revirado pelo avesso do avesso do avesso... que o diga Caetano... caralho, será que é isso Caetano?

Eu nunca tive nem chance de ensinar, só aprendi a ser e não ser, eis tantas questões que o Shakeaspeare veio me mostrar, me provocar, me alucinar e me elucidar... Em que estação naquele ano, daquele dia, estávamos nos vendo pela primeira vez? Era outono também... Te reencontro sempre no outono... 

Entretanto, neste outono finalmente me despeço, para sempre.

Odoyá

esteja onde seja feliz.



domingo

Tom Zé né?

Viva o Tom Zé né?

Cada música... Cada letra... Cada cadência... Cada uma... Cademar...

De vez em quando todos os meus olhos e ouvidos se voltam prá música dele, eu sou inocente, preciso estudar esse samba...

vou e volto no atrocadocapacaustico... sou atropelada pelo complexo de épico, saboreio ali pelo edifício Itália um pecadinho, só um bocadinho, prá aprender , viu Dodó, que o medo é o nosso melhor conselheiro...

Na noite do meu bem, eu viajo no sonho colorido de um pintor, eu mergulho na dor e dor, lavo o riso e a faca, apago as mensagens sob os clarins da coragem, punhais e mais... 

Se o caso é chorar, primeiro descascar, o abacaxi de quem? O meu e o de Irará. Só depois vagar, sem o sândalo, sem happy end, passar mal e tomar sonrisal...

Eita senhor cidadão, a língua prova que

a tradição se faz com ___ quilos de medo e a seriedade com ___ mortes no peito

embora Jimmy renda-se, toque se rock, se rock rock me... 

eu tô te explicando prá te confundir... bota o som aí, escuta esse som meio Gonzagão, meio Dalí...

eu tô indo ali, ouvir aquele disco, de setenta

estudar o samba desse sujeito que é xique-xique demais,

vai experimenta! <3 

segunda-feira

Fofoca

Essa história começa assim:

Mulher recebe mensagem via whatsapp de número desconhecido. Trata-se de: fofoca. Fofoca sobre ela. São prints de conversas a respeito de sua personalidade, seu modo, sua vida... Abalada, ela guarda tudo e fica em silêncio por mais de 20 dias. Quando consegue, desabafa com o colega de trabalho, que chocado com a notícia, pede prá ver os prints, ao que ela se recusa, pois não quer causar alarde e sim tentar entender quem fez isso... o que motiva alguém a enviar "anonimamente" conversas negativas sobre alguém?

Os dias vão passando e as demandas do trabalho aumentando. A mulher percebe que o clima mudou desde o episódio fatídico, e decide seguir em frente, sem acionar advogados ou entrar com um processo por difamação (sim, ela foi orientada a isso), mas a cabeça abriu e ela desistiu.

Um ano se passou.

Muitas fofocas já rolaram.

Um dia, a mulher está numa mesa, preenchendo os formulários de sempre, quando se aproxima dela, um funcionário e diz que sabe aquela história do ano passado e tal... Ela fica reticente e pergunta sobre o que ele sabe, ele então responde que sabe quem mandou os prints e pergunta a ela se ela quer saber ainda... Ela diz sim, secamente, esperando talvez um nome óbvio, mas se surpreende com a resposta: fui eu.

Silêncio.

Ela se levanta, recolhe os formulários e se retira, sem olhar para o sujeito. Encaminha-se para o departamento de RH, anuncia sua demissão e vai pegar suas coisas para levar embora. O sujeito e as pessoas do departamento ficam embasbacadas com a postura da mulher, que sem dizer palavra, vai enfiando seus objetos pessoais em uma bolsa de tecido azul, com fuxicos laranja. Não responde, nem olha para mais ninguém. Finaliza o recolhimento e sai porta afora.

Em casa, joga a bolsa no sofá e vai pro banho. Se troca, se arruma, se perfuma. E deita na cama, pronta prá sonhar. O celular bomba, muitas mensagens especulatórias, mas ela silencia todas e adormece sob o silêncio pacífico que faz dentro e fora de seu peito...

O dia acaba, e a vingança começa...



Então

então o homem vestido com um bom terno disse ao outro também vestido com um bom terno, comendo uma boa comida:


- aí é simples, ô xará, a gente deixa as pessoas bem tristes, bem cansadas, bem desanimadas, depois jogamos umas notícias mais ou menos boas,  elas acreditam que tudo vai melhorar... continuam empurrando, esperando... e a gente continua pegando tudo que é nosso...

 

- é xará, tristeza e cansaço, o veneno deles, o nosso remédio... hahahaha!

- hahahahaha!



e enquanto desligava o celular, enfiou uma boa garfada na boca da boa comida que saboreava.

.

 

sexta-feira

Perde-se

 

Perde-se 

o precioso verso

e o precioso tempo

quem  planeja vingança  se debruçando

no detalhe mofado da porta que nunca abriu...





quinta-feira

OUTROS TEMP(L)OS

 

Leva-se tanto tempo...

prá tudo

nada

prá sempre

e nunca mais.

 

Levei tanto tempo...

pensar

ser

estar

.

fazer.

.

.

.

tanto tempo...


Que tempo agora,

É temp(l)o,

.

.

De paz.

em nome

em nome da humanidade

desceram as cortinas da verdade
subiram as legendas da vaidade

quis assim que uma espécie de aviso fosse dado
um alerta, um recado
vindo de um sem fim de mundos antes
que aonde se planta vantagens
se nascem as sacanagens
e as satanagens...


da natureza
vieram todos os sinais
da natureza humana
vieram todos os ais
ora, ora, quem grita mais que uma boca silenciada
no meio da floresta queimada?

em nome de um tudo
faz-se um nada

para onde vão as dores do mundo senão para o próprio mundo?
cada sentimento que vira vento e água
cada -mágua-
vem e vai nos hospitais
ora, ora, quem cavou esta afirmação e deixou cair sua conclusão?



a cor do dia não foi inaugurada
e arrumar as gavetas foi como
um passaporte de ida e chegada
para cada dobra, uma memória daquela roupa
calças e calcinhas coloridas dançam em silêncio...

em nome de quê, não gritamos?