quarta-feira

Eu quero escrever um poema

Eu quero
Eu quero escrever
Eu quero escrever um poema

Mas só sei escrever este
Este poema guardado
E entalado na laringe da minha saudade

Me constipando noite a noite

Eu quero escrever um poema
Que diga mais do que antes
E menos do que esse instante

Eu quero esticar minhas veias
Num espreguiçar lento e calmo
Sentir o ar percorrendo minhas vértebras e raízes
Eu quero florescer
Frutificar
Um verso maior que minha esperança
Uma pausa veluda de silêncio vivo
Um suspiro perene
Entre ontem e amanhã

Eu quero adormecer a palavra ser
Desmaiar o verbo amar
Jorrar o destino das entranhas
Eu quero

Mas só sei escrever este poema
Sem vírgula faminta
Sem reticência aguda
Que diga uma única vez
O que precisa ser dito

Aquilo que não cabe em nuvens
Nem em pautas coloridas
Aquilo que urge toda manhã
Aquilo que só um poema pode dizer


Eu quero escrever um poema de amor....

terça-feira

Bahia

se a Bahia tem um jeito,
o espírito, ainda que santo,
tem jeito de pecado,
um jeito nosso que é de ser e de estar,
em qualquer lugar

nosso norte é um vento sem bússola...

Porque o sorriso é a única incompletude que satisfaz,
já que se esperam sempre outros mais
Porque calor e amor não rimam á toa
Porque banho não lava só o corpo
e sal não tempera só comida
Porque amizade é uma união
em comunhão de bens espirituais
Porque só se faz o caminho andando
Porque sol e lua se revezam enquanto os copos se esvaziam
Porque música e dança ritualizam a vida
fome e sede sempre vêm de dentro seja para o que for
a ciranda existe e resiste nas pernas de Luísa


Porque saudade sempre fica depois que vai
Porque viajar não é sair
é entrar
Porque ir embora não significa dizer adeus...





Hoje

fazer hoje


apanhar sementes da manhã
lançar no terreno fértil da alegria 


abraçar o vento, beijar a lua e transar com o universo


escrever o capítulo
dizer o sim
alongar os músculos
exercitar a paciência
embalar aquele presente


virar a página ou queimar de vez o livro


tomar sol num gole só
grafitar a parede da dúvida
fotografar o vazio que abriga a fé


aquietar as fúrias calamitosas
uivar e gozar
dançar e cantar
cirandar e celebrar


hoje: 
viver o hoje.

segunda-feira

Sinal

Este escrito tem assinatura de sal 
https://www.youtube.com/watch?v=JmKWrUJjxTk


como o sal
eu me diluí no mar
dos olhos
de ressaca...

foi Machado quem me ensinou

que o tempo
altera
e transforma

obliquamente falando

este escrito é
não sobre o amor


eu que saltei do meu barco

para nadar em mim
não entendi que seria sereia
insisti nos pássaros
ter asas
letras e palavras livres
corpo e liberdade
caminhos de areia
e de folhas
jardins de frases

plataformas

estações
ventos

tempestades

lampejos
despedidas
boas vindas

sementes...







sábado

O punhal da ternura

instrumento cortante

suspiro enlouquecido de doçura

mas há o tempo...



agora, um pássaro

asa cicatrizada
pronto para voar
desengaiolado 

o punhal da ternura entra pelas vias emocionais




em galhos, cavernas e tocas

os trabalhos recomeçarão...






sexta-feira

Capítulo Um - Único capítulo

nunca pude lhe dizer tudo, nunca poderei,
 mas não foi porque eu não quis...





diante do silêncio
eu me decidi
na fenda das palavras renasci

rasguei a confissão
filtrei a confusão

e ressurgi.



[Para Mariana]

domingo

Sopro

Donzela que sopras forte,
Vento da saudade violenta
Donzela você não aguenta
Saudade é só prás fortes...