terça-feira

Bahia

se a Bahia tem um jeito,
o espírito, ainda que santo,
tem jeito de pecado,
um jeito nosso que é de ser e de estar,
em qualquer lugar

nosso norte é um vento sem bússola...

Porque o sorriso é a única incompletude que satisfaz,
já que se esperam sempre outros mais
Porque calor e amor não rimam á toa
Porque banho não lava só o corpo
e sal não tempera só comida
Porque amizade é uma união
em comunhão de bens espirituais
Porque só se faz o caminho andando
Porque sol e lua se revezam enquanto os copos se esvaziam
Porque música e dança ritualizam a vida
fome e sede sempre vêm de dentro seja para o que for
a ciranda existe e resiste nas pernas de Luísa


Porque saudade sempre fica depois que vai
Porque viajar não é sair
é entrar
Porque ir embora não significa dizer adeus...





Hoje

fazer hoje


apanhar sementes da manhã
lançar no terreno fértil da alegria 


abraçar o vento, beijar a lua e transar com o universo


escrever o capítulo
dizer o sim
alongar os músculos
exercitar a paciência
embalar aquele presente


virar a página ou queimar de vez o livro


tomar sol num gole só
grafitar a parede da dúvida
fotografar o vazio que abriga a fé


aquietar as fúrias calamitosas
uivar e gozar
dançar e cantar
cirandar e celebrar


hoje: 
viver o hoje.

segunda-feira

Sinal

Este escrito tem assinatura de sal 
https://www.youtube.com/watch?v=JmKWrUJjxTk


como o sal
eu me diluí no mar
dos olhos
de ressaca...

foi Machado quem me ensinou

que o tempo
altera
e transforma

obliquamente falando

este escrito é
não sobre o amor


eu que saltei do meu barco

para nadar em mim
não entendi que seria sereia
insisti nos pássaros
ter asas
letras e palavras livres
corpo e liberdade
caminhos de areia
e de folhas
jardins de frases

plataformas

estações
ventos

tempestades

lampejos
despedidas
boas vindas

sementes...







sábado

O punhal da ternura

instrumento cortante

suspiro enlouquecido de doçura

mas há o tempo...



agora, um pássaro

asa cicatrizada
pronto para voar
desengaiolado 

o punhal da ternura entra pelas vias emocionais




em galhos, cavernas e tocas

os trabalhos recomeçarão...






sexta-feira

Capítulo Um - Único capítulo

nunca pude lhe dizer tudo, nunca poderei,
 mas não foi porque eu não quis...





diante do silêncio
eu me decidi
na fenda das palavras renasci

rasguei a confissão
filtrei a confusão

e ressurgi.



[Para Mariana]

domingo

Sopro

Donzela que sopras forte,
Vento da saudade violenta
Donzela você não aguenta
Saudade é só prás fortes...




terça-feira

Varal de ideias


Nesta tarde o sol alinhavou ideias esfriadas,
Contidas nas gavetas escuras de dentro...
Elas saíram uma a uma enfileiradas por um fio de calor humano...
Varal de ideias que ao invés de secarem,
Molharam-se da chuva de expectativa que caía na cabeça sem parar...
Depois o sol se pôs.
O varal ainda está lá, segurando.
As ideias também, ainda gotejando.
Quando o vento da vontade bater,
Certamente as ideias, passivas e penduradas, voarão sem querer.
Para onde elas vão é que não dá prá saber,
Muito menos o que pode acontecer!
Já pensou se o varal não aguenta
E com o peso arrebenta
Fazendo cair as ideias, agora mais sedentas?
É melhor reforçar o varal
Limpar bem o seu quintal
Prá garantir uma segunda chance.
Se a ideia cair, não precisa se afligir
Caia junto e junto se levante!
Pendure as ideias de volta
E você vai perceber algo intrigante:
Depois de uma queda, nenhuma ideia, nenhum ser humano,
Pensa e vive como antes...